Todos esses gestos mortos, mecanizados, especializados, roubando uma parcela da vida cem vezes, mil vezes por dia, até o esgotamento da mente e do corpo, até esse fim que já não é o fim da vida, mas uma ausência que chegou à saturação. Como o condenado, que vai da parede branca da sua cela à janela gradeada que representa a possibilidade de fuga. Basta abrir uma fenda na solitária para que logo a esperança se infiltre com a luz e o faça esperar por qualquer coisa que se pareça com... que se pareça com... com o que? Que se pareça com o que?



















































































Nada do que estava acontecendo ali era simples. Mas não havia meios de encarar de outra forma. Não existiam condições. Não era possível que tudo aquilo fosse encarado como era. Era preciso que ainda houvesse um chão sob seus pés: “que continuemos”… Não. Não. Como pensar que há escolha ali onde só se pode seguir, sendo a pena, caso se pare, caso se diminua a velocidade, o desmoronamento do que se conhece como vida… Chega a ser engra… interessante, ver as coisas de tal ponto de vista. Ver todas essas linhas, entrelaçando-se, cortando-se, separando-se, convergindo, desaparecendo e perceber que via-se, apenas, uma linha mestra que avançava, arrastando tudo. Cabeça baixa, mãos na nuca. Boca calada: segue, vagabundo, segue. Condições. É preciso que existam condições. Não há direito às linhas tortas, há o dever imposto pela linha mestra. Mas agora, aqui, onde o que há é o tudo. Onde a pequena jangada foi destruída e e… e… isso… fu… foi tomado pelas ondas, desintegrado, onde não há nem mais linhas… aqui onde o bater das ondas soa apenas como risada e choro incessantes, aqui onde o ponto de vista é lampejo raro, este lampejo, este segurar-se brevemente nos destroços da jangada, uma breve visão da qual a única coisa que pode emergir é mais risos e escorrer de lágrimas. Lampejo que não dá condições para vingança ou ressentimento, apenas o prazer e a dor de ser um, mesmo com aque.aquilo que seguia, seguia como se conduzisse e enunciava – segue, vagabundo, segue… dolorosa e prazerosa justiça da impureza primordial – final – permanente.




















































































“Eu podia te fuder, tu sabe, né?! Podia te fuder?! Tu não é ninguém, ninguém. Adianta teu lado. Adianta antes que eu mude de ideia”. Como um feitiço essas palavras foram lançadas. Encontraram facilmente seu alvo. Agora, um mero espectro: ninguém, afinal. Cujo destino, ou melhor, cuja decisão acerca de seu destino não está nos céus ou infernos, mas nessa gruta suja chamada mundo, proferida pela boca que pode lhe devorar, não o faz agora, escolhe e pode escolher não o fazer agora. Afinal, se é ninguém. Afinal, se é ninguém. Ninguém. Afinal, Ninguém. E se está por todos os lados. Se é Ninguém. Devora-se muitos e muitas, mas sempre, sempre há Ninguém. Sempre há Ninguém. No fim só haverá Ninguém.



















































































                                               O vazio não para de ganhar terreno




















































































Ao contrário daquilo que se diz para nós,             não é uma figura da plenitude, menos ainda da plenitude viril.              é uma figura da amputação.              é esse ser que só tem acesso ao sentimento de existir no             , no              com o Outro; um ser que não consegue obter por conta própria o sentimento de existir. No fundo, não há nada mais triste do que o espetáculo dessa forma de vida que, a cada situação, busca no              o remédio para sua ausência de si. Mas também não há nada mais emocionante; porque essa ausência de si não é uma simples falta, uma falha de intimidade consigo próprio, mas sim o contrário, uma positividade.              é realmente animado por um desejo, e até mesmo por um desejo exclusivo: o de desaparecer.              quer deixar de ser, mas anseia que esse desaparecimento tenha certo estilo. El   quer humanizar sua vocação para a morte. É por isso que el   nunca consegue se misturar de fato ao resto dos humanos, porque estes se preservam espontaneamente do seu movimento rumo ao Nada. Na admiração a que se dedicam, pode-se medir a distância que el    coloca entre si e os demais. Assim,              está condenad   à solidão. Uma grande insatisfação se vincula a el    nesse aspecto, naquilo que faz com que el   não consiga ser de nenhuma comunidade, exceto da comunidade falsa, a comunidade terrível             , que só têm sua solidão para compartilhar.

O prestígio, o reconhecimento e a glória não são tanto uma exclusividade d                , mas sim a única forma de relação compatível com essa solidão. Sua salvação e sua danação estão igualmente contidas nela.              é uma figura da inquietude e da devastação. Por não estar presente, por existir somente pela morte, sua imanência se tornou miserável, e el    sabe disso. É porque el    nunca se acostumou com o mundo. Por esse motivo,              não se apega a ele, somente espera pelo seu. Mas existe também uma ternura, até mesmo uma delicadeza d        , que é esse silêncio, essa semipresença. Se el   não está presente, normalmente é porque, numa situação contrária, el   só conseguiria envolver aquel s que   cercam em seu caminho rumo ao abismo. É assim que             ama: preservando os outros da morte que el   carrega no coração. Dessa forma,              costuma preferir a solidão à companhia d s             . E isso mais por benevolência do que por desgosto. Ou então el   se juntará à tropa enlutada d s              , que se observam deslizando um a um rumo à morte. Porque essa é sua propensão.

Em certo sentido, a própria sociedade só pode desconfiar de s               . Ela não   exclui nem   inclui verdadeiramente; ela   exclui no seu modo de inclusão e o inclui em seu modo de exclusão. O terreno do entendimento entre el s é o do reconhecimento. É por meio do prestígio que nele reconhece que a sociedade mantém                 à distância, é por isso que ela se vincula a el   e é por isso que ela    condena.

A contrassociedade subversiva deve, e nós também devemos reconhecer em cada             , em cada organização             , o prestígio ligado a suas explorações. Nós devemos admirar a coragem desta ou daquela façanha em             , a perfeição técnica desta ou daquela proeza, de uma             , de um             , de toda ação              bem sucedida. Nós devemos apreciar a audácia deste ou daquele ataque a              para liberar         . Nós devemos fazer isso precisamente para nos proteger d s             , para consagrá-los à morte. Nosso luto será inequívoco.




















































































Uma permanência que é independente das condições. Sua existência não está relacionada com nenhuma falha estrutural ou funcionamento ideal. Ali estava, está e ficará. Uma existência sem sustentação externa: ergue-se pelos próprios suspensórios, mantém-se no ar pelas próprias forças. Não apenas jogador; rei do jogo. Uma alma que não é tripartite. Se há auriga e dois cavalos, que se seja quem aposta na biga vencedora. (Necessidade [possibilidade?] de pensar além do coice). Domínio do jogo, desde as regras às trapaças mais eficientes. Destas, a melhor: tudo feito sob o nome do interesse público/do bem/do homem. AA: autônomo; autômato. Tal é a generalização. Não há primeiro passo, muito menos expressão do primeiro passo: “nós”. Multiplicação e intensificação do eu, a ponto de se poder ultrapassá-lo, esmagá-lo – AA.





















































































                            Reparaste na mão que, com todo o respeito, te mata?
 



















































































Sim, sim, o Bem. Não são poucas suas funções: culpabilizar, caçar, torturar, encarcerar, grilar, enganar, incendiar, matar. Entre cada uma das citadas, muitas outras. Entre todas, uma em especial: asfixiar. Trata-se de uma função complexa, dado que atua sobre o material e o imaterial, sobre o corpo e o espírito. Como asfixiar um espírito? Lida-se aí com uma interrogação milenar, da qual emergiram uma infinidade de técnicas – discursivas, comportamentais, hipnóticas, mortificantes, sacrificiais, arquiteturais, etc. –, das quais se ressalta aquela chamada de “integração” ou de “felicidade vulgar” (algumas dúvidas podem cercá-la, como já se disse: “[d]eus escreve direito por linhas tortas, dizem. Será mesmo isso ou será de lamentar que a felicidade vulgar tenha afogado, asfixiado um espírito tão singular? Quem sabe lá?”). Um estado de coisas vampiresco, que atrai para poder sugar o que há de vida de sua presa, e, assim perdurar: eternização/glorificação/ostentação do vazio. Uma função complexa, foi o que se disse. Complexa, pois ao lado, ou melhor, ao redor da asfixia espiritual, está a corporal. Multiplicam-se os instrumentos para empreendê-la: mãos, braços, cassetetes, joelhos, coturnos, são alguns deles. É empreendida, geralmente, em duplas, trios ou grupos maiores. Uma função complexa, pois a asfixia material e a imaterial complementam-se; e há algo a mais. Aquela dada sobre os corpos generaliza-se de tal forma, que a espiritual apresenta-se como dádiva: mate meu espírito, salve (não mate) meu corpo. Mas, e se for o espírito que realmente rege o corpo? Não, não: mate meu espírito, salve (não mate) meu corpo. Mas esses corpos que caem, sem ar, será que junto a eles não morre algo de nosso espírito? Não, não: mate meu espírito, salve (não mate) meu corpo. A cor destes corpos (fale!, qual a cor destes corpos? Fale!), a cor destes corpos (repita!) não os coloca em um continuum espiritual? Não, não: mate meu espírito, salve (não mate) meu corpo. Por favor, senhor, por favor. (Filma! Filma! Filma!). Eu paro. Eu paro. Desculpa. Eu não consigo respirar. Não consigo. Já me arrastaram, já me fuzilaram, já me esfaquearam, já me chicotearam, já me espancaram, já me deixaram cair, já me jogaram, já me deixaram morrer de fome, de sede, de frio, doente, debaixo de chuva, debaixo do sol – tô te pedindo, por favor –. Não, não: mate meu espírito, salve (não mate, não mate, não mate) meu corpo. Trata-se, portanto, de uma função complexa.


















































































Todos sabemos, todos, de um jeito ou de outro. Aqueles que organizam o mundo organizam nosso sofrimento e a sua anestesia



















































































                                    Amanhã é tarde, depois é impossível
                                    Ai dos que param, ai dos vencidos


















































































Diferente de outros insetos, para os quais voar é uma atividade corriqueira, natural, para o que se observa – não trata-se de mera observação, havia algo a mais, algo ainda desconhecido que alimenta e amplia certa capacidade de atenção – voar parece ser a atividade de maior risco, trata-se de um voo por uma atmosfera de impossibilidades. Não há destino, ou se há, ele é inalcançável. Aproxima-se de pequenos e grandes objetos, de colunas, de paredes, de modo explicitamente involuntário, até contra a própria vontade. Parece certo que irá se chocar. Consegue se afastar. Há momentos que acontece o choque. Quando isso se dá contra uma parede, por certo tempo, voa escorado, arrastando-se. Afasta-se ligeiramente, volta à encontrá-la, um retorno dado sempre com mais violência. Há desespero. Voar não é algo que deveria fazer, que deveria poder fazer. Cai. Estatela-se lateralmente. Assim fica. Imóvel. Não se pode saber se se trata de uma tática de sobrevivência ou de uma breve morte. Sabe-se apenas que está no chão e está imóvel. Caso seja uma tática, ela é acompanhada por um calculado e veloz bater de asas – o perigo deve ter se afastado, agora deve-se fazer de tudo para fugir o mais rápido possível. Caso seja uma breve morte, dá-se uma enxurrada repentina de vida inundando as asas, elas carregarão o corpo para longe, e, calmamente, a corrente vital voltará a percorrê-lo por inteiro. Logo se vê que não se trata de tática nem de morte/vida: as asas batem velozmente, não voa, passa a girar, como se houvesse um eixo prendendo-o ao chão. O corpo esbranquiçado, fluido, uma libélula atrofiada, subdesenvolvida, tornando-se carrossel. Desespero, é isso. O que expressa sua existência é o desespero. De repente, tudo muda. O corpo esbranquiçado se ergue do chão, com certa imponência, limitada pela sua natureza, e com grande precisão, sai pela fresta da janela. Seria expressão de esperança? Talvez. Não importa. Não olha, nem pensa mais no inseto. Levanta-se, vai em direção a janela. Sente o calor do sol em sua pele (há algo como um calor do som que também o penetra). Talvez tudo possa mudar, até outra parede, outra queda.


















































































Os meus gestos inacabados é que me perseguem, e não o futuro da raça humana, nem o estado do mundo no ano de 2030, nem as hipotéticas possibilidades, nem as abstrações sinuosas dos futurologistas. Se escrevo, não é, como se costuma dizer, 'para os outros'. Não pretendo exorcizar o fantasma dos outros. Vou ligando as palavras ponta a ponta para sair do isolamento, de onde os outros terão de me puxar. Escrevo por impaciência e com impaciência. Para viver sem tempo morto. O que as outras pessoas dizem só me interessa na medida em que me diga respeito. Elas precisam de mim para que se salvem assim como eu preciso delas para que eu me salve. O nosso projeto é comum.


















































































Em poucas palavras, meu caso é o seguinte: perdi inteiramente a capacidade de pensar ou dizer algo coerente sobre o que quer que seja, já não consigo apreendê-las com olhar simplificado do hábito. Tudo desintegra-se em pedaços; pedaços e mais pedaços e nada mais consegue ser abarcado por um conceito, através dos quais só se consegue chegar ao vazio.  Tenho a impressão de que tudo que existe, tudo de que me recordo, tudo que os meus meus confusos pensamentos tocam, é alguma coisa. Mesmo a minha própria apatia, o habitual torpor do meu cérebro me parece ter um sentido. Experimento um ditoso e interminável jogo de forças em mim e à minha volta, e dentre os objetos com que estas forças jogam, não há nenhum rumo a qual eu não gostaria de lançar-me e com ela imiscuir-me.



















































































Pronto, o espetáculo chegou ao fim. O público se levanta. É tempo de enfiar o casaco e de voltar para casa. Ao se virar, já não existe mais casaco nem casa


















































































BRONTE é erick araujo e gustavo Torres

gravado, mixado e masterizado por ernesto sena
entre dezembro de 2018 a dezembro de 2020

vídeo por pontogor
com contribuições de Marilia Furman e Vijai Patchineelam

bronte.bandcamp.com
bronte-bronte@protonmail.com

2020